Iria escrever sobre outra coisa hoje, mas sem querer acabei encontrado meu diário, meu quinto diário. A primeira página dele foi inesquecível pra mim. Segue abaixo o que escrevi há alguns anos atrás.
“Hoje eu e o Carlos brigamos. Mais uma briga. Eu detesto quando brigamos, principalmente porque ele estava certo. Acho que hoje atingi meu ápice, foi meu estopim. Carlos me disse muitas coisas, uma delas me deixou marcada até agora. No calor da briga, ele me chamou de Mimada, Rebelde sem causa. Eu ñ queria concordar, mas acho que ele está certo. Eu bebi além da conta. Aliás, quando é que eu ñ bebo de mais ñ é? Eu ñ percebi que tinha passado do limite. Eu nunca percebo.
Ontem nós fomos pra uma fazenda. É de um amigo do meu pai, uma festa incrível. 60 anos dele. Todos os filhos, alguns netos. Muita gente. Ficamos pra dormir, tava tudo indo bem. A festa estava marcada pra noite, mas fomos pela manhã. As crianças aproveitaram, andaram a cavalo pela primeira vez. É um lugar muito bonito, verde por todo o lado, uma cachoeira muito bonita. O dia foi bom. Mas a noite, eu fiz questão de estragar.
O ‘parabéns’ foi bonito. Aliás, seria lindo se tudo ñ fosse falso. A vida dele é falsa. Mas depois eu comecei a beber. Estava bêbada, completamente bêbada. Subi no palco que foi armado, peguei o microfone do vocalista da banda e comecei a cantar. No início, as pessoas levaram como brincadeira. Depois que a música acabou, eu ri. Ri como uma grande louca. Então o aniversariante foi gentilmente me tirar do palco, mas ñ quis. Foi ali que iniciei meu show. Eu estraguei o aniversário dele. Comecei a contar que tudo ali era falso. Lembro do pouco que disse.
Que que é hein? Vc pensa o que? Que ninguém sabe da sua vida dupla? Que vc trai sua mulher com a secretária, com a contadora e com todas as mulheres que cuidam de vc? Pra que esse falso moralismo?
As pessoas me olharam horrorizadas. Eu sei que tudo o que disse todos sabiam. O Carlos subiu no palco, todo envergonhado e me carregou pro quarto. Eu sei que meus pais tb estavam envergonhados. O Carlos me falou hoje: ‘O que vc pensa Paula? Que vc vai consertar o mundo?’. Eu acho que isso é uma das razões que fizeram escolher Direito. Detesto injustiças.
Uma vez eu escutei a D. Amélia dizer ao Carlos: Filho, vc precisa interná-la urgente! Ela é alcoólatra! Eu ñ sou alcoólatra! Mas isso me assusta. Eu ñ vou culpar meu marido se um dia ele chegar comigo e disser: Ñ agüento mais. Quero a separação! Eu no lugar dele, já teria me separado há muito tempo. Eu ñ quero mais ser a ovelha-negra, ñ quero mais ser o motivo de alguma briga. Mas eu ñ posso ser o que ele me pede. Ñ nasci pra ser dona-de-casa, ñ nasci pra ficar em casa e cuidar de filho e marido. Ñ dá, ñ faz parte de mim. Mas por que eu casei? Pra que casei se até pra casar, eu tomei três doses de Whisky antes de ir pro cartório? Eu gosto do Carlos. Ele sempre foi bom comigo, sempre me amou. Ele me ama, e eu apenas gosto dele. Talvez foi por isso que casei. Será que eu vou encontrar um homem que me ama como ele me ama? Então eu casei.
Mas eu preciso mudar. Talvez meu marido esteja certo. Mimada? Pode ser. Tive tudo o que quis. Todos que quis. Até os que ñ quis. Rebelde sem Causa? Ñ sei. Rebelde sempre fui. Nunca gostei de ser enquadrada, seguir regras. Mas eu tenho que mudar. Ñ dá pra continuar assim. E se meus filhos tivessem visto o que eu fiz? E se o Carlos um dia me internar? Ñ consigo ficar longe dos meus filhos. Ñ posso ficar longe dos meus filhos. Se eu ñ mudar por eles, por quem mais eu vou mudar?
Eu sei que ñ sou dependente da bebida. Eu bebo quando quero. O problema é o depois. Sóbria, eu ñ controlo minhas palavras. Bêbada, eu ñ tenho controle de nada.
Eu amo meus filhos. Eu vou mudar, principalmente por eles...”
E pensar que quando eu escrevi isso foi há 5 anos atrás. Essa é a prova de que o mundo dá voltas.

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