terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Hoje me senti um pouco mais em casa, senti um pouco mais de Brasil perto de mim. Conheci um jovem, de 15 anos, é brasileiro e vive qui há pouco mais de 1 ano. Tivemos uma conversa, talvez agradável pra ele, intrigante pra mim.

Ele estava com uma certa pose, tinha tirado a carteira de motorista e estava satisfeito. Um sorriso com um ar de maioridade no rosto. A partir daquele momento, quando voltei pra casa, minha cabeça ferveu, um turbilhão de pensamentos tomou conta de mim. A primeira pergunta que fiz a ele foi: "Há quanto tempo está aqui?". Ele me disse: "Pouco mais de 1 ano. Acho que 1 ano e 4 meses". Então perguntei: "Quando volta pro Brasil?". Ele sarcasticamente me disse: "Espero que nunca. Sabe como é o Brasil né, uma vergonha." Apenas ri. Educadamente. Mas por trás do meu riso, estava um discurso pronto.

Ali eu vi um jovem vazio, tão abstrato como a fumaça que saía de seu cigarro, mas ele ñ é o único. Aliás, o cigarro que ele fumava era de maconha. Ele me contou muito entusiasmado que defende cegamente a legalização da maconha. Mais uma vez eu ri. Eu disse a ele: "Então, é a isso que vc defende? Vc quer legalizar aquilo que já se fuma no Planalto livremente, aquilo que existe antes mesmo de eu nascer?". Falava como se legalizar a maconha fosse mudar alguma coisa. Depois que falei isso, senti uma certa frustração no seu olhar. Ñ sou a favor, nem contra. Mas será que um papel redigido de maneira formal vai aumentar ou diminuir o consumo e a produção da droga?

O que há de errado com essa juventude? Ele ñ conhecia Janis Joplin, Piaf, Maysa, Getúlio Vargas, João Goulart, Elis Regina, Golpe de 64. Que ñ conhecesse as duas primeiras, eu até entendo, ou até compreensível. Mas e quanto aos outros? Qual a razão pra isso? Sei que o Brasil tem problemas que o torna vergonhoso, mas ele tem uma história, tem um passado. Ñ saber isso é ainda pior que ter vergonha de sua nação.

Mas também me pergunto: Será que é culpa dele? Será que é culpa dele se quando nasceu já encontrou Democracia, República, sociedade livre e estruturada? Ou será que é culpa nossa, que ñ lhes trasmitimos a história, ñ dissemos que até ele ir tranquilamente num cinema, muitos morreram ao sair de um porque o governo achou que tinham estudantes confabulando; que ñ dissemos que Festivais de Músicas foram cancelados porque artistas e intelectuais apoiaram a UNE na época da ditadura; que ñ dissemos que até pra ir tomar um sorvete na esquina, meus pais foram revistados, confundidos por estudantes ou diretórios de esquerda? Ou será que alguém tem culpa? Ou talvez ninguém tenha culpa? Mas por que falar em culpa se estudantes e artistas viveram e morreram justamente pra sermos livres?

Os jovens de hoje ñ tiveram que lutar. Lutar? Lutar pra que? Lutar por quê? Lutar por quem?

Ele ñ sabia que o mundo já foi dividido entre direita e esquerda. Mas será que ele sabe o que foi o Cinema Novo? Teatro Opinião? Se eu perguntasse qual o signifcado de alienado, engajado, revolucionário e reacionário, o que eu ouviria de resposta?

Eu tinha apenas 14 anos, mas escondida dos meus pais, pintei o rosto e fui pedir o impeachment do Collor. Eu tinha 14 e estava participando de uma importante manifestação de democracia. Ele tem 15 e ñ sabe quem foi Juscelino Kubitschek! Eu lembro da minha mãe preparando apostilas e aulas na máquina de datilografar. Ele tem computador com wireless, está num país desenvolvido, mas ñ sabe a qual partido o Presidente do Brasil pertence.

Talvez todos esses detalhes, pra ele, sejam bobos e irrelevantes. Mas se o Brasil é, como ele próprio define, uma vergonha, talvez ele seja a explicação.

Sei que hoje já ñ há nenhuma opressão, nem mesmo um governo que lhe proíbe dizer tudo o que pensa. Mas eu, hoje, inicio uma guerra maior, talvez mais intensa quanto o passado. Uma guerra intelectual. Ñ podemos deixar que personagens como JK, Getúlio Vargas, João Goulart fiquem apenas nas páginas do livro de História. Nem mesmo sejam objetos de estudo somente para provas. Façamos com que a memória desses e de outros heróis permaneçam em outras memórias, que suas ações se perpetuem e que suas realizações façam parte de uma conversa entre jovens, ñ de um lembranças dos meus e de nossos avós.

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