domingo, 8 de fevereiro de 2009

Pais e filhas.

Ultimamente tenho escrito mais. Graças à Deus, consegui organizar minha agenda, meus horários e dividir minha atenção entre a Universidade, meus filhos e eu mesma. Hoje, tive uma forte lembrança e inspiração para escrever. Ñ sei se foi a saudade ou uma constatação, mas me senti forçada a escrever sobre as relações entre pais e filhas.

Hoje, logo após o almoço, as crianças foram brincar no jardim. Aimée se juntou aos dois. Lembrando que Aimée é nossa querida vizinha francesa, grande colega dos meus filhos. Eles estavam brincando, conversando e rindo. De repente, Aimée veio até Marie, sua mãe, e disse: "Mãe, amanhã vc liga pro papai?". Marie se assustou com o pedido inusitado, sem um motivo especial. Marie simplesmente respondeu: "Sim amor, posso ligar. Mas qual a razão dessa vontade repentina?". A resposta da Aimée foi simples: "Nada. Só vontade de falar com ele". Eu apenas olhei para Marie e ela me disse: "É saudade. É filha, é mulher". De fato, é filha e mulher.

Geralmente, quando as mulheres estão grávidas de primeira viagem, quase todos os pais preferem que venha um garoto. Porém, filhos homens acabam sendo mais cúmplices de suas mães do que dos pais. Claro que a amizade e companheirismo entre pais e filhos existe, ñ disse o contrário. Mas as filhas acabam tendo um amor, um ciúme maior dos pais do que das mães. Digo isso com experiência na causa.

Amo minha mãe, a tenho como uma inspiração, busco ser a mãe que ela foi para mim, mas minha relação com meu pai é maravilhosa. Todos os momentos mais importantes da minha vida meu pai foi o primeiro a saber. Se tivesse que chorar, chorava sempre no ombro dele primeiro. Uma vez minha mãe contou que ao engravidar pela segunda vez, meu pai disse: "Será que dessa vez vem meu garotinho?". Minha mãe só lhe respondeu uma coisa: "Querido, se vier um menino, quem ganha sou eu. Homens sempre choram e riem primeiro com as mães. Vc sabe muito bem disso". Meses depois, ao saber que tinha ganhado mais uma menina, meu pai chorava tanto e mais tarde agradeceu a minha mãe, dizendo as seguintes palavras: "Obrigada por me dar mais uma companheira".

Minha mãe, quando decidiu ficar no Brasil e casar com meu pai, ela lembra que ligou de um orelhão e disse: "Pai, ñ voltarei mais para a Inglaterra. Vou casar aqui no Brasil. Eu te amo!". Meu avô apenas disse: "Suspeitei disso pela sua demora em voltar pra cá filha. Filhinha, fica bem viu. Quanto ao casamento, só casa quando eu estiver aí. Seja onde estiver, vc nunca entrará sozinha na igreja. Eu sou seu pai!". Assim ocorreu nas vezes que estava grávida. Meu avô foi o primeiro a saber.

Um vizinho nosso, do Morumbi, costumava levar os filhos para os jogos de futebol. Meu pai ia com eles. Uma vez, esse vizinho disse: "Poxa Otávio, pena que vc ñ tem um garoto pra ir com a gente." Meu pai apenas disse: "Cara, ñ me faz a menor falta!". Meu pai se achava um máximo quando íamos em alguma praça ou parque. Ele nos segurava pelas mãos com o maior orgulho, ficava ainda mais prosa quando alguém vinha nos elogiar.

E tal qual minha mãe tinha essa relação com meu avô, eu tb tenho essa cumplicidade com o meu pai. Apesar da minha primeira palavra ter sido "mamã", quando precisava de socorro a única palavra que saía de minha boca era "Pai". Lembro-me da conversa que tivemos na véspera do meu casamento. Tinha 22 anos. Eu estava no quarto ouvindo música quando meu pai entrou. Ele disse: "Filha, amanhã vc casa. Casamento é um passo muito grande, muito sério. Vc vai dividir sua vida com essa pessoa, possivelmente construir uma família com ele, ter filhos. Ñ é brincar de casinha. Pensa com mais calma filha." Eu falei: "Mas pai, eu tô apaixonada pelo Carlos!". Ele sabiamente respondeu: "Filha, eu ñ tô nem sou apaixonado pela sua mãe. Filha, eu AMO sua mãe. Amo a tpm, o riso, os 1001 olhares, o choro, a vaidade e até a ansiedade dela eu amo. E amo mais ainda pela famílai que nós construimos, os obstáculos que ela passou junto comigo, a coragem que ela teve de enfrentar tudo do meu lado. Isso tudo filha é amor, ñ paixão. Vc está se casando por paixão. Eu quero que vc case, mas case por amor." Depois dessas palavras, eu nada disse. Apenas o abracei. Talvez se eu tivesse seguido seus conselhos, minha vida teria sido diferente.

Uma das coisas que eu lembro com carinho do Carlos é isso. Logo quando engravidei, eu queria muito que fosse menino. E achava que ele tb gostaria se fosse menino. Mas ele me falou: "Amor, eu quero muito uma menina. Menina é sempre mais pai!". No meu baú de emoções está guardado a cara dele de felicidade quando o médico carregou a minha filha e disse: "Aqui está o primeiro gêmeo. É a menina!". Ele chorou tanto que soluçava. Aquela era a primeira de muitas cenas que me emocionaram dos momentos paternais do Carlos. Ele carregando, conversando, fazendo dormir, acalmando a Maria. Isso tudo eu guardo, afinal dizem que só devemos lembrar das coisas boas mesmo.

Me dói quando percebo que minha filha ñ terá mais esse contato com o pai. Tento suprir, mas há feridas que ñ cicatrizam. Meu coração sangra quando ela, antes de dormir, me pergunta: "Mãe, cadê aquela blusa do papai? Mãe, posso dormir com a foto do papai?". Principalmente quando a encontro pelos cantos chorando, rezando pelo pai. Ontem mesmo ñ aguentei. Chorei junto dela quando a encontrei embaixo da janela da sala, soluçando de tanto choro, entre as fotos do pai e uma blusa que ela nunca me deixou lavar. Essa blusa ele usou no aeroporto, quando viemos pros EUA e ela disse: "Papai, me dá essa blusa que vc tá usando?!". Ele muito assustado perguntou: "Mas filha, por que vc quer essa blusa?". Ela apenas respondeu: "Ah pai, pra eu sentir teu cheiro até vc ir ver a gente." Ele emocionado deu a blusa. A cena da minha filha ali, perdida nos choros e lembranças mexeu comigo. Ela me abraçou muito forte. Eu quase ñ entendia o que ela dizia, compreendi algumas palavras. "Ai mãe...Mãe...meu pai...papai...Ai mãe, eu quero tanto meu pai".

Pra mim, esse é um dos mistérios da vida. Esse laço forte entre pais e filhas é inexplicável. Faz parte de um dos segredos de Deus em nossas vidas. Eu ainda ñ imagino a minha vida sem o meu, apesar de saber que um dia ñ o terei mais por perto. Eu só espero que esse momento demore um pouco mais.

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