Algumas pessoas me perguntaram o por quê de toda melancolia no posto passado. E eu é que pergunto "Por que?!". Ñ foi à toa que saí do Brasil. Provavelmente meu destino ñ foi dos melhores, concordo. Mas estava cansada. Estava cansada dos que me cercavam, cansada da onde morava, da sociedade paulistana, da futilidade, estava cansada de muita coisa. Queria morar num lugar onde niguém me conhecesse, onde o que eu fizesse ñ seria motivo para julgamentos (embora eu nunca tenha dado a mínima importância antes, porém ainda que ñ ligasse, os olhares eram categóricos...), queria poder fazer coisas que há muito eu ñ fazia.
Pode ficar no ar a pergunta: "Foi uma fuga?!". Talvez, acredito que sim, mas no momento que deixei o Brasil estava numa situação muito complicada, eu precisava sair. Por segurança, morava num condomínio luxuoso. Pra mim, era insuporável. Jovens irresponsáveis desfilando os importados carros do papai; mulheres inutilmente artificiais, sempre preocupadas com o cabelo, roupa, bolsa, rosto, celulite e todas essas bobagens das quais ñ faziam parte do meu foco; crianças extremamentes mimadas, sendo criadas por bondosas babás; casas impecavelmente bonitas, representando o típico sonho americano. Tudo aquilo me cansava, olhava ao redor e ñ via (muito menos vivia) aquela realidade. Aqueles vizinhos cobravam de mim posturas e atitudes que, embora minha família tivesse ótimas condições financeiras, ñ faziam parte de mim pelo fato de ñ ser criada assim.
Meu pai era uma pessoa muito simples, tal qual minha mãe. Carros e conta corrente ñ eram nossa identidade. Fui criada andando descalça (embora minha mãe dissesse para fazer o contrário), correndo, pulando, brincando, caindo, sendo eu. Meu pai era o homem mais feliz do mundo quando todos (todos=família reunida) estavam ao redor da piscina, dançando, ouvindo música, conversando, sendo felizes. Ou, como ele mesmo dizia, quando era noite, nós íamos jantar e estavam nós quatro. Ele olhava e dizia: "É isso que me faz feliz".
O mesmo se repetia com a mamãe. Ela ñ se sentia feliz indo ao cabeleireiro, mas quando era domingo e minha irmã e eu "invadíamos" o quarto de papai e mamãe, nos jogando na cama. Nós percebíamos em seu sorriso que esse era seu momento mais feliz. Ou quando a Dani anunciou para todos que estava grávida de Gabriela. Meu pai ficou com os olhos marejados e minha mãe mal podia conter a felicidade. Seria a primeira neta, a primeira criança depois de tantos anos sem nenhuma para correr pela casa! Meu pai, como bom descendente de italiano, gritava pelo corredor da maternidade "Eu sou vovô! Minha neta nasceu!"! Se ñ fosse as enfermeiras, os seguranças teriam expulsado meu pai dali! E o que dizer quando inesperadamente eu soube que seriam gêmeos?! Melhor ainda foi quando confirmei que haveria ao menos um menino na barriga. O primeiro garoto na família! Antes mesmo do João nascer, o macacão, boné, meia e sapatinho do São Paulo estavam comprados!
Foram pequenas ações como essa que nos deram felicidade. Ñ foi ter uma ferrari, 200 pares de sapato, vestidos caros, casas no exterior, etc. Eu nunca vi ninguém, no leito de morte, dizer que foi feliz porque suas aplicações na bolsa renderam milhões. Ou mesmo dizer que estavam arrependidas por ñ terem feitos ótimos negócios.
É engraçado, ou irônico, dizer que sou mais feliz tendo que acordar mais cedo p/ pegar o ônibus p/ levar as crianças na escola. Sou mais feliz aprendendo a cozinhar para as crianças, tendo que separar a roupa suja da limpa que insistentemente eles deixam espalhadas pela casa. Ñ tenho mais carro, moro um pouco afastada do centro, me viro em três porque ñ tenho mais babás e tento conciliar trabalho com casa, sendo que essa dificilmente está bem organizada. Sou uma outra Paula (ou seria a velha Paula da infância?), que como tantos, tenta ser feliz nesse difícil equilibrio da vida.
E mais: meus amigos são meus amigos porque gostam de mim nesse meu jeito meio louco e volúvel. Ñ por morar onde moro ou ter o que tenho. Alguns aqui nem mesmo acreditam que sou brasileira, mas sou e ñ nego. Ñ é irônico que tenha achado isso no berço do capitalismo?!
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