sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Retomar a vida...

Jamais imaginei que meus filhos, aos 6 anos de idade, teriam que aprender a superar uma morte. Ñ qualquer morte, ñ qualquer perda, mas a despedida do pai. Ainda ñ passei por isso, ainda tenho meu pai vivo, do meu lado. Talvez por conta disso, seja tão difícil saber exatamente o que meus filhos estão passando, o quão doloroso é esse momento. Eu olho, observo, imagino, mas ñ sei qual é a sensação.
A reação deles ñ podia ser diferente daquilo que imaginei. Cada um a sua maneira, tenta seguir em frente, tentam esquecer, tentam ñ sentir que o pai ñ estará presente em momentos importantes que ainda estão por vir. A forma como eles vem enfrentando a situação é admirável p/ muitos, mas é preocupante p/ mim. Eu ñ sei até que ponto vai a força entre eles, até que ponto eles vão suportar e ñ desabar mesmo, colocar pra fora tudo o que pensam. Isso me consome, me martiriza.
A Nanda, sempre a "princesinha do pai", a mais agarrada com ele. Eles tinham uma relação invejável, uma conexão de olhar que só reconheço quando olho pro meu pai. Pode ser que o velho ditado que filhas sempre são mais apegadas aos pais e os filhos, com as mães justifique essa relação. Nunca acreditei muito nisso porque em casa, éramos só mulheres (eu, minha irmã, minha mãe e meu pai). Eu era mais agarrada mesmo com meu pai, tanto nos momentos bons e ruins, mas nada do que me aconteceu minha mãe ficou de fora, mas o primeiro a saber sempre era meu pai. O mesmo acontecia ente minha irmã e minha mãe. E a relação que tenho até hoje com meu velho via se repetir entre minha filha e o pai. Por ser tão parecida comigo, ter o mesmo gênio, ela sempre procurou mais o pai, ele era o calmante dela. E agora, passando por isso, vejo o quanto tem sido mais dolorido para ela. Mais do que nunca, ela dorme com a blusa do pai, a foto dele ao lado e provavelmente, tem sonhado com ele nas últimas noites. Chora, chama, busca, às vezes até acredita que tudo ñ passa de um pesadelo, mas no fim, a única palavra que sai da boca é PAI.
Já o João foi surpreendente. Desde o momento em que recebeu a notícia até chegar ao Brasil ñ pronunciou uma palavra, só via lágrimas cairem pelo rosto. Tão parecido com o pai, num momento como esse, reagiu da mesma maneira que o pai alguns anos atrás, quando o Carlos perdeu um primo muito próximo. As emoções travadas, o choro engatado na garganta, como uma concha fechada. O silêncio é a marca registrada deles. Meu filho tem raiva, reagiu mal a tudo isso. Ainda acha que a culpa é do pai, mesmo eu tendo explicado por várias vezes o contrário. No fundo, acho que ele entendeu e acredito que esta raiva ñ é exatamente do pai, mas pela situação, pela perda, na necessidade de procurar culapdos.
No velório, muito choro, muitas emoções. Preferi ñ deixá-los por muito tempo ali, ñ achei um ambiente muito apropriado, mesmo sendo o corpo do pai deles. Normalmente, quando se vai ao velório de um jovem vc nunca sabe o que dizer aos familiares, principalmente aos pais e irmãos, pessoas mais próximas. Então, o que dizer aos filhos pequenos? "Meus pêsames"? "Meus sentimentos"? Às vezes é melhor ñ dizer nada. Um olhar ou um abraço é suficiente. Sei que fui criticada por ter tirado-os dali, mas ñ acho que meus filhos estavam preparados para fezerem cerimônia e ficar parados, recebendo cumprimentos daqueles que vieram dizer o último adeus. Respeito os meus filhos, principalmente essa dor. Procuro-os p/ conversar, quem sabe ouvi-los desabafarem, mas também respeito o momento em que preferem ficar só.
Sei que o velório foi só uma das muitas situações em que terei de agir em favor deles, já que agora, sou a única responsável por eles. Sei também que haverá outras situações em que terei de respeitar o lugar que seria do pai, nem eu ou qualquer outra pessoa poderá subtituir. Formaturas, bailes, sonhos, conversas, saudade. Em todos esses, terei que me adequar somente ao meu papel, ao meu espaço. Se um dia minha filha casar em igreja, a entrada com o pai ñ será mais possível, mas seu lugar será respeitado. Só rezo e peço que o tempo cuide dessa ferida no coração dos meus filhos.

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