domingo, 5 de outubro de 2008

Querido pai, querido amigo Carlos.

Ai Carlos, a despedida final foi tão marcante, tão doída...Dizer adeus, te ver pela última vez foi sacrificante...
Carlos, vc ñ foi lá um exemplo de marido, mas como pai ganhei na loteria, melhor, nossas crianças. Em todos os aspectos, talvez o de pai vc tenha sido o melhor. Lembro quando terminamos nosso casamento, procurávamos razões para explicar o fim da união, mas vc sabiamente falou: "Talvez somos tão bons como amigos, que como marido e mulher, fracassamos". Na época, achei aquilo uma extrema bobagem. Hoje, concordo contigo. Fomos muito próximos, muito amigos, muito irmãos durante muitos anos. Fomos ótimos em todos os ângulos de relacionamento possíveis, exceto em um: matrimônio. Mas, mesmo ñ tendo funcionado como marido e mulher, serei eternamente grata pelas jóias que vc me deixou. Duas preciosidades, dois tesouros que nos alegraram desde o momento em que chegaram ao mundo: João Vitor e Maria Fernanda.
Enquanto todos nos demos as mãos e rezamos por vc, eu pensei, lembrei de tudo que conversamos, rimos, imaginamos, planejamos sobre o João e a Nanda. Lembrei do quanto vc, na maioria das vezes, se irritava facilmente com o João e vc sempre dizia: "O João é tão parecido comigo, que nossos santos ñ se acertam!". E era verdade. O João é tão parecido contigo, o jeito que se zanga, o jeito que dorme, o jeito protetor, bem teu estilo machão, que adora cuidar de tudo. Definitivamente Carlos, eu nunca te falei, mas eu sempre te admirei demais como pai. Talvez isso seja uma das coisas que eu tenha de carregar pro resto da vida. Até quando estava grávida, vc foi diferente. Enquanto a maioria dos pais adoram escolher o nome dos meninos, quando soubemos que ganharíamos um casal de gêmeos, vc prontamente optou por escolher o nome da menina, e eu o do menino. Nem imaginávamos, mas desde aí Deus já nos dava um sinal de como seriam as relações em casa. Vc e Nanda grudados, em sintonia o tempo todo. Apreciava essa relação pai e filha, tão cúmplices. Toda vez que vc lia pra ela no sofá à noite, mesmo muito cansado, fazia a fala dos personagens com entonação e ela te olhava tão orgulhosa, talvez ela nem estivesse prestando atenção na história. E eu ficava no cantinho, olhando, admirando aquilo, ao mesmo tempo, agradecendo à Deus por vc ser o pai que era. Sempre sonhei que minha filha tivesse o pai que tive. E vc foi.
Ah Carlos, sei que botamos um ponto final no nosso casamento porque realmente ñ tinha mais jeito. Mas como vou comentar com um estranho o quanto vc era bom com a Nanda, ou como o João escreve do mesmo jeito que vc? Serão coisas que ficarão no meu peito, na minha mente. Fico imaginando quando a puberdade chegar e nossos filhos passarem por transformações, momentos em que sua presença ficará marcada por um buraco, uma panela sem tampa. Como conversar com o João sobre primeira noite de um homem ou como fazer a barba? Nos 15 anos, quem dançará com a Nanda em teu lugar? Está sendo difícil para elas, e sei que de alguma forma, é difícil pra vc tb.
Ñ importa quantos anos se passem, sei que as crianças sempre guardarão seu espaço no coraçãozinho delas. Tb ñ importa quantos homens mais eu conheça, nossa história jamais será esquecida. Sempre haverá a prova, o resultado de tudo o que vivemos, João e Maria.

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